Recuo no aperto ao crédito não tira preocupação do governo com ritmo de expansão da oferta

CIDADE BIZ

Intenção real é dividir com empresários os receios e cobrar maior velocidade nos investimentos

Antonio Machado

O ministro Guido Mantega não deve ter exagerado a apreensão com o ritmo do crescimento do consumo em setores operando no talo como o automobilístico, embora tenha negado que cogite pelo menos por ora esfriar o crédito ao consumidor e, assim, conciliar as velocidades da demanda à expansão da oferta, esta mais lenta que aquela.

A mensagem é essa, o mensageiro é que se chocou com a repercussão pública do recado. Ele era dirigido aos fabricantes de setores com a capacidade de oferta acanhada, mantido o passo dos fatores que impulsionam o aumento da demanda, e lentos na decisão de investir ou modestos no porte dos projetos para expandir a produção. Seria o caso das indústrias automobilística, siderúrgica e cimenteira.

Faz sentido. Absurdo foi tratar a questão como excesso de crédito e culpar o consumidor pelo descompasso entre a demanda e a oferta. Ele se aproveita de um cenário pelo qual muito ansiou - a melhora da renda e a maior facilidade do crédito - e estranho seria se não desse a menor pelota à sensação de bem-estar, deixando de fazer o que se espera nestas ocasiões: que se endivide. Mantega pisou na jaca.

Não há problema em se endividar dentro de parâmetros de solvência adequados, que estão muito longe de virar o pesadelo assistido nos EUA. O crédito total é de 35% do PIB, contra 70% no Chile, mais de 100% nos EUA. Vem crescendo forte e está com jeito de aumentar 20% a 25% no ano, elevando a relação crédito sobre o PIB para 40%, um nível recorde. Mas a taxa de inadimplência do crédito pessoal está estável, em torno de 7%, e até caiu ligeiramente no início do ano. O crédito consignado é limitado a 30% do salário ou aposentadoria.

O governo tem de ficar atento à febre do consumo, como alertamos há tempos, mas ela se manifesta ou pelo aumento de preços ou pela inadimplência crescente, e ambos os índices estão normais.

O Banco Central está aflito, o que também é normal. A instituição está comprometida com uma meta de inflação, 4,5% este ano, com uma variação teórica de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Num ambiente de expansão do consumo diante de uma oferta restrita complementada por importações, estas sim em movimento ascendente preocupante, e ao lado de um governo que faz do aumento permanente do gasto público o meio para se legitimar politicamente, o risco de descontrole é total. Mas também é só um risco, não uma ameaça.
A pesquisa semanal do BC sinaliza que as expectativas para a inflação seguem estáveis, em patamar abaixo da meta, o que prevê a manutenção, não alta, da Selic na reunião de 16 de abril.

Sutileza carente

A interlocução entre o governo e setores empresariais deveria ter uma sutileza que faltou a alguma das partes. Dos bancos, afirmou o ministro na entrevista convocada para se explicar, conforme pedido do presidente Lula, ele quer saber se as concessões de crédito se fazem de modo “seguro e sustentável”. Mas juntou no mesmo contexto o elogio de que “os bancos são muito prudentes no Brasil”, tanto, disse, que não embarcaram na onda do subprime dos EUA.

Compreende-se a sua preocupação. Só que não precisaria se dar ao trabalho de conferir com a banca o que o BC monitora e divulga todo mês, como os dados de juros, prazos e atrasos anunciados nesta terça-feira.

Falta empreendedor

Dos fabricantes mais pressionados pelo aumento do consumo, como a indústria cimenteira e a siderúrgica, disse querer conhecer o que eles têm feito para superar os gargalos, além de oferecer apoio a que aumentem os seus investimentos em expansão. De novo, é melhor um ministro sintonizado com o setor privado que alheio.

Mas como ex-presidente do BNDES Mantega conhece bem o que inibe a expansão acelerada dos investimentos e sabe que o BNDES, único financiador de longo prazo no país, só não financia e investe mais porque não tem recursos para isso.

A rigor, o problema é menos de incentivo e mais do reduzido número de empreendedores capacitados no país para grandes projetos.

Dividindo receios

Então, o que quer o ministro? Aparentemente, sua intenção real é dividir com os empresários os receios do governo com a inflação e com o grande crescimento das importações. Ao país falta produção em grande escala, é esse o nó estrutural.

As empresas precisam investir mais e em ritmo maior para que a demanda não sature a produção coadjuvada pelas importações, com seqüelas sobre a inflação e o ajuste das contas externas. Antes disso, porém, o BC já terá sido acionado.

Selic é o Caveirão

O BC, com a Selic no papel do “Caveirão”, está para a economia como o BOPE, no filme Tropa de Elite, está para a bandidagem.

Ambos incitam medo, embora para seus dirigentes devessem inspirar respeito, não pânico nem ressentimento. O que os abala é que são acionados, normalmente, quando a situação escapou ao controle em ambientes que misturam inocentes e culpados - mais os primeiros que os segundos. O BC só assusta quando imprevisível e movido pelo Estado acuado pelo que não soube no devido tempo enfrentar e agir.

Se existir a convicção de que, aconteça o que for, a inflação não passará da meta – como, no caso da lei, jamais se tolerará a sua desobediência, assumindo-se a presença ostensiva e eficiente dos serviços do Estado – as infrações serão aberrações pontuais.

O BC, como o BOPE, limpa a sujeira que o Estado permitiu, e aí é grande o risco de exageros. Ações preventivas dispensam excessos.

O Blogueiro

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