Annuit coeptis

Inflação desponta no mundo e ninguém tem certeza de nada, só que a economia global mudou

In Business & Financial News on 28/04/2008 at 1:24 PM

BC e Fazenda terão de parar de brigar e formar um casal estável, sob pena de o ajuste custar muito mais

Antonio Machado

Enquanto o dólar não parar de cair, o preço do petróleo não parar de subir, os alimentos em geral pararem de pressionar os salários, a banca dos EUA sair da lama, coisas assim, nada triviais, o bate-boca entre os líderes mundiais só tenderá a engrossar e a busca de culpados, a aumentar. Onde falta comida, ninguém tem razão.

Os países se acusam e o clima é de salve-se quem puder. A bonança da economia mundial de mais de uma década deixou de ser universal, e ninguém sabe explicar direito o que acontece. A marca do momento é o risco de a recessão nos EUA se ampliar e contaminar o comércio global. O crescimento econômico em todas as regiões do mundo será menor este ano e no próximo em relação a 2007, segundo o FMI.

Pela lógica, tal cenário deveria sugerir a redução do consumo e, portanto, menores pressões inflacionárias. Mas, como o economista alemão Wolfang Münchau, do Eurointelligence, destaca, “a inflação, não depressão global ou o derretimento financeiro, é agora o maior problema a desafiar a economia no mundo”.

O barril do petróleo não guarda mais lógica com coisa alguma, e o preço só sobe, já estando acima de US$ 120, um recorde após outro. Os gêneros de primeira necessidade vêm no embalo do petróleo. Em várias partes do mundo pipocam protestos violentos contra a alta dos alimentos e governos tomam medidas defensivas, como suspender a exportação de arroz, a providência dos maiores produtores, todos da Ásia, mais Brasil, e de trigo, decisão da Argentina, que ameaça pôr aqui o preço do pãozinho e das massas na fogueira da inflação.

Certezas ninguém as têm, nem no Brasil, onde, na dúvida, o Banco Central iniciou outro ciclo de alta dos juros para frear o ímpeto da economia, preferindo ser xingado por desligar o som no auge da festa a ser atropelado por eventos mal compreendidos, com mais de uma explicação, recorrentes no mundo e de desdobramentos incertos.

Tudo é considerado possível neste quadro: da débâcle dos preços das commodities, o que seria um desastre de razoáveis proporções para o crescimento econômico do país, fortemente dependente das exportações de alimentos, minérios e manufaturados básicos, a um ciclo longo de inflação ou a estabilidade no pico da onda altista – o cenário, por exemplo, mais provável para o petróleo.

Cadeia de eventos

O que há por trás desses movimentos? Não há uma única explicação, mas uma cadeia de eventos. A alta dos alimentos, por exemplo, tem mais de uma causa. Culpa-se a produção de biocombustíveis, efeito maior nos EUA, que usa o milho, importante na cadeia alimentar de aves e gado, que no Brasil, onde o etanol é derivado da cana-de-açúcar. Mesmo nos EUA, no entanto, a produção de grãos não caiu.

A melhoria do padrão aquisitivo em países populosos, como China e Índia, seria outro vilão. Com mais gente diariamente ingerindo calorias e proteínas, a demanda por alimentos tende a aumentar. Só que a China continua a exportar arroz e milho e tem um trunfo: os grãos geneticamente modificados. Se puder exportar a produção dos chamados GM, estoura a bolha de preço dos grãos.

Fundamentos mudaram

Fatores climáticos também têm sido mais freqüentes que de hábito. E há uma seqüela da crise bancária dos EUA: a migração de recursos das aplicações tóxicas de alto risco para commodities, sobretudo as alimentares, aproveitando-se da financeirização da agricultura.

Como conclui nota da MCM Consultores, “boa parte dos fatores que afetam o preço dos alimentos é de natureza estrutural”, portanto, não se deve esperar redução ou retorno a valor de equilíbrio mais baixo. E arremata: “Não houve apenas secas, mudaram fundamentos”.

A saia justa do BC

A hiperinflação do petróleo também é uma conjunção de fatores, um dos quais reflete a dúvida se a produção mundial, muito justa com a demanda crescente, não teria iniciada a curva de esgotamento – o que atrai as atenções para a confirmação das reservas descobertas na área do pré-sal da costa brasileira.

O resultado de tantas incertezas é que o mundo entrou numa “fase diferente”, segundo a MCM. “As taxas de inflação pífias do passado recente serão mais escassas, e o Brasil não fugirá muito à regra”. O BC, cuja ata com os motivos da alta da Selic semana passada não ajuda muito e elucidar tais fenômenos, reflete os enigmas globais – sinal de saia justa para justificar a inflação na meta.

O momento exige cautela, mas não pânico nem fuga da realidade. O que se observa com alimentos e petróleo é conseqüência não de algo errado, e sim do sucesso nos últimos anos da maioria das políticas econômicas aplicadas em várias regiões, especialmente na Ásia e na América Latina. Continuasse o antigo Terceiro Mundo na pasmaceira histórica, rompida depois dos anos 90, e não haveria mais gente no mundo comendo e queimando combustíveis. Agora, está-se frente a um dos momentos que pedem quebra de paradigmas e avanço tecnológico.

Modelos testados terão de ser revistos, como o regime de metas de inflação, que pode abalar a saúde da economia exposta a choques de preços estruturais. Para a MCM, Nova Zelândia, Colômbia e Chile, entre outros, dificilmente farão a meta este ano. A margem de erro minguou. BC e Fazenda terão de parar as brigas de alcova e formar um casal estável, sob pena de o ajuste ser maior que o necessário. >>>

CIDADE BIZ

You must be logged in to post a comment.