Uma overdose de forró
Coletânea com 28 faixas produzida pela Sociedade dos Forrozeiros da Paraíba será lançada hoje na Praça Antenor Navarro
Ricardo Anísio
O otimismo tem sido a marca da recém-criada Sociedade dos Forrozeiros da Paraíba, e não podia ser diferente. Afinal, esperamos tantos anos até que nosso Estado se mirasse no sucesso da entidade similar criada pelos cantores e compositores de forró pernambucanos, que se não for com otimismo a coisa não anda. Como forma de impulsionar a Soforró-PB, seus diretores resolveram produzir um CD coletânea com 28 faixas, que será lançado hoje, a partir das 20h, na Praça Antenor Navarro, no Centro Histórico da cidade.
Para Badu, músico eleito para a presidência da Sociedade dos Forrozeiros da Paraíba, a entidade “tem tudo para dar certo”. Provavelmente essa é a torcida de todos que já não suportam ter seus ouvidos empestados de deturpações em nome dos legítimos ritmos nordestinos. Consciente de que não será fácil alcançar o sucesso dos vizinhos pernambucanos, o presidente da Soforró-PB, no entanto, não esmorece: “Depende somente de nós mesmos, da nossa organização e do objetivo comum onde as vaidades individuais sejam deixadas de lado”, garante.
Com o CD que será lançado no show de hoje à noite todos esperam que a entidade comece a abrir espaços e provocar um debate mais intenso sobre as programações radiofônicas, buscando com isso manter uma disputa em pé de igualdade com o chamado ‘forró de plástico’. Entender porque o público paraibano privilegia grupos como Aviões do Forró em detrimento de gênios como Pinto do Acordeon é um dos passos iniciais da Sociedade dos Forrozeiros da Paraíba.
No disco, que servirá como cartão de visitas para os artistas negociarem seus shows e lutarem pelos espaços da mídia, percebe-se a irregularidade na produção dos ritmos tradicionais da região. A necessidade política de não melindrar os menos talentosos, é compreensiva nesse momento inicial, mas isso certamente deporá contra os rumos da Soforró. “Não podíamos discriminar ninguém que se enquadre no que achamos que seja o nosso legítimo forró, com o tempo é que começaremos a discutir o nível dessas produções”, comenta Badu.
Claro, se a Sociedade dos Forrozeiros paraibanos quiser se fortalecer vai ter de pensar também em números, mas na palestra de lançamento da entidade, questionou-se bastante a forma relaxada com que muitos artistas do forró pé-de-serra tratam suas composições e seus discos. A cantora mineira Paula Jabour chegou a defender a tese de que “tenho de fazer uma música que possa ser acessível, porque se elevarmos demais o nível pode ser que o público não assimile”. A tese não funciona, porque em Pernambuco Maciel Melo, Petrúcio Amorim e Xico Bizerra entre outros, elevam cada vez mais os níveis melódicos e poéticos, e se dão bem.
Como vemos, não será fácil para Badu levar a Soforró-PB sem ter de escancarar o debate e cobrar dos seus pupilos uma música de qualidade elevada. O CD “Coletânea Soforró-PB” tem faixas excelentes como as de Pinto do Acordeon (”Por Amor ao Forró”), Bebé de Natércio (”Falatório lá de Nós”), Biliu de Campina (”Coco Repeado”) e Flávio José (”Sedução”); apenas para citar nomes que podem servir de referência e guiar os que ainda tratam com desleixo suas obras.
Se o espelho é a Associação dos Forrozeiros Pé de Serra e Ai, de Pernambuco, a Sociedade dos Forrozeiros da Paraíba tem de começar a ensinar seus pupilos a tratarem bem seus discos, com gravações de qualidade, projetos gráficos criativos, melodias diversificadas e uma poética compatível com a luta. Afinal de contas não basta se dizer um autêntico artista de forró pé-de-serra, tem que praticar a teoria. O que se tem visto por aí é uma overdose de xotes românticos com rimas paupérrimas em “ão” e “or”. O NORTE ONLINE
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