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Walter Barros Spencer
Escritor
Indignado estou eu, que sou um brasileiro comum, mas digno. Indignado estou eu, que não tenho poder, mas tenho responsabilidade. A responsabilidade que me obriga a me levantar no meio da noite para escrever este artigo. Indignado estou eu, que nada tenho a não ser a coragem de dizer o que deve ser dito por uma pessoa comum. Comum, mas não ignorante, mas não iludida por falácias ideológicas nem por desvairadas estratégias clientelísticas da má imprensa. Indignado estou eu, que me vejo incluso em conjuntos irreais – sociedade, povo, os brasileiros – que são usados a torto e a direito como panacéia universal, como aqueles antigos remédios xaroposos que a tudo curavam e que eram vendidos nas feiras, pois era somente ali, nas feiras de gente simples, que a ignorância das pessoas podia ser burlada. Xaropes que eram falsos, e sabidamente falsos. Indignado estou eu, que vivi todo o tempo, o mesmo tempo de todos, sem que tenha deixado o meu coração ficar amargo nem a minha alma pejada de ódio. Indignado estou eu, que jamais acreditei que posso fazer violências como resposta à violência, e indignado estou porque fazem apologia de que isto é certo. Indignado estou eu, que amo a juventude e tenho compromisso com ela e não posso ficar calado quando escuto alegarem que ter tido dezenove anos é o motivo de ter caído em erro, como se o fato de ser jovem correspondesse ao de ser idiota e irresponsável. Não é como eu entendo a juventude. Mas talvez exista algo de verdade na declaração. Algo que tenha brotado do inconsciente, da sombra que habita dentro das pessoas. Na realidade, jamais na história deste país houve uma juventude como aquela que conseguiu em tão poucos anos transformar o idealismo candente e bonito em uma hipocrisia corrupta e feia. Indignado estou eu, que fiz parte daquela juventude, e hoje não tenho méritos, mas tenho a obrigação de pagar verbas indenizatórias àqueles que faziam o que não fiz porque não era correto fazer. E, pelo amor de Deus, não me venham com a velha ladainha de que salvaram a democracia. Poupem-me! Não me recordo de que aqueles grupos que optaram pelo roubo e pelas mortes, tenham lutado pela restauração democrática na época, isto é, que tenham tido como objetivo o retorno do presidente deposto – o João Goulart. Isto teria sido a luta pela democracia. Mas não! Nunca o fizeram. Nem mesmo foi solicitado que tal desejo fizesse parte daqueles comunicados obrigatórios em troca de seqüestrados – um crime hediondo. Talvez eles não saibam que outros jovens – a grande maioria dos jovens – discutia isso, e não os apoiava. Talvez tenham ficado sem capacidade de autocrítica porque a imprensa – as grandes e capitalistas empresas que dominam a mídia – formou o caldo de cultura que criou o mito sobre eles, que os nutriu e os fez saudáveis. E como ficaram saudáveis! Enchem a boca no uso de palavras que nem sabem o significado. Nem querem saber. Pouco lhes interessa. Indignado estou eu, que tenho de suportar a empáfia, a superioridade do poder – não a superioridade do espírito – despejando o pior tipo de demagogia dentro de minha casa. Indignado estou eu, que assim sou ofendido porque para meu pai a casa era o reino dele. Hoje não é mais nada. Indignado sou eu, que não escapo de ditaduras: antes, a dos militares, agora, a de colegiado civil. Historicamente, ao menos historicamente, a última é a do pior tipo. Que grande ressaca este pais vai ter. Ou, quem sabe, estejamos vivendo a ressaca. O porre, a grande bebedeira aconteceu quando os que comandam o país hoje – sem exceção – tinham 19 anos. NATALPRESS



