Pedro do Coutto
Com a vitória de 14 pontos de vantagem na Carolina do Norte, que figura entre os colégios eleitorais americanos de porte médio, e com a derrota por apenas 2 por cento em Indiana, que é um colégio menor, a campanha do senador Barack Obama para ser escolhido candidato à Presidência da República dos Estados Unidos parece bastante consolidada nas urnas prévias. Ele está 173 delegados à frente de Hillary Clinton e somente 16 superdelegados atrás. Faltam as preliminares de Virgínia Ocidental, Oregon, Kentucky, Montana e Dakota do Sul. Virgínia, na terça-feira próxima, Oregon e Kentucky, no dia 20. Montana e Dakota do Sul, cenários de filmes famosos de western, a 3 de junho. O desfecho será na convenção nacional do início de julho em Denver, Colorado. Não há como a senadora por Nova York ultrapassar Obama.
Nem mesmo computando os votos das prévias da Flórida e de Michigan, que a direção do partido suspendeu. Na melhor das hipóteses, para Hillary, convoca novas disputas nestes estados. Virgínia, Oregon, Kentucky, Montana e Dakota do Sul não se incluem entre os maiores redutos. Virgínia pesa 13, Oregon 7, Kentucky 8, Montana apenas 3, Dakota do Sul 3 também. A Carolina do Norte tem peso 15. Indiana, 11. Como disse Júlio César, ao cruzar o Rubicão para derrotar Pompeu, a sorte está lançada.
Não há como, a meu ver, Hillary superar o senador por Illinois, terra do presidente Lincoln, porque o estatuto do Partido Democrata é diferente do estatuto do Partido Republicano. No Partido Republicano, o candidato que vence as prévias num estado arrebata todos os seus votos. Aliás, como é na eleição geral. No Partido Democrata não é assim.
Os delegados à convenção nacional são divididos proporcionalmente pelas votações alcançadas pelos candidatos. Assim, se um deles atingir, digamos, 60 por cento dos votos, arrebata também 60 por cento dos delegados. O outro fica com a fração de 40 por cento.
Nas eleições anuladas pela direção partidária, na Flórida e no Michigan, Hillary venceu respectivamente por 49 a 33 no primeiro e 55 a 45 por cento no segundo. Mas há um detalhe. Na Flórida, o senador John Edwards encontrava-se na corrida e obteve 14 pontos. Desistiu de permanecer no páreo e apoiou Obama. De qualquer forma, mesmo derrotando Obama em todos os estados em que as prévias vão se realizar, Hillary não conseguirá descontar a diferença de 173 delegados já comprometidos.
Há os superdelegados. São 796 figuras tradicionais do partido e detentores de mandatos que têm o poder de decidir sem levar em consideração os resultados das prévias. Em primorosa matéria publicada na edição de 8 de maio na “Folha de S. Paulo”, o correspondente em Washington, Sérgio D’Avila, explica detalhadamente todos estes pontos. Assinala que, entre os 796 iluminados, 164 já se firmaram com Hillary, 248 com Obama. Enquanto isso, 284 ainda não revelaram seus votos. Mas é pouco provável que todos estes se dirijam em favor da senadora.
A tendência clássica, em tais ocasiões, é dividirem-se entre ela e ele. Nas prévias a serem realizadas ainda este mês e no mês de junho estão em disputa 217 delegados. A vitória na Carolina do Norte fortaleceu bastante Obama, principalmente pela margem de votos. Em Indiana, ele chegou a estar 20 pontos atrás de Hillary. Foi descontando, diminuindo a diferença, até que na urna perdeu por somente 2 por cento. Sua tendência é para cima. A de Hillary, para baixo. Como escreveu Sérgio D’Avila, só um milagre ou mudança nas regras do jogo salva Hillary. Mas mudar as regras do jogo nos Estados Unidos, depois dele começado, não é nada provável. Melhor dizendo: é impossível.
As pesquisas nacionais, especialmente as do Gallup, apontam, no plano nacional, 47 para Barack Obama, 42 para Hillary Clinton. Os especialistas em política norte-americana sustentam que muito dificilmente os superdelegados contrariem uma decisão norteada pelo voto direto. Seria a crise conduzindo a uma cisão partidária que não interessa aos democratas. Encontram-se há oito anos fora da Casa Branca, desde que Al Gore perdeu para George Bush, atual presidente. Há 4 anos, não conseguiram voltar ao poder com John Kerry.
A oportunidade é agora, quando Bush encontra-se acentuadamente desgastado e o candidato republicano, John McCain, é obrigado a sublinhar posições direitistas para assegurar inclusive os votos dos falcões. O debate inevitavelmente vai envolver a guerra do Iraque, reedição da guerra da Coréia, que durou de 50 a 53, e do conflito do Vietnã, que começou em 62 com Kennedy e acabou em 75 com Gerald Ford, depois da viagem de Nixon à China em 73, e de sua renúncia em 74. Por uma coincidência do destino, essas duas guerras foram desencadeadas por administrações democratas. A primeira com Truman. A segunda, como lembrei há pouco, com Kennedy. E levada ao absurdo por Lyndon Johson, também democrata. A guerra não pode ser popular.
Tanto assim que, na sucessão de 64, Goldwater, republicano, adversário de Johson, foi à televisão e disse que acabaria com a guerra do sudeste asiático lançando a bomba atômica contra a China. Minutos depois (nos EUA, a propaganda política é livre), surge Johnson na tela. E faz apenas uma curta afirmação: Goldwater disse que jogaria a bomba na China. Ele não disse isso só para agradar os radicais. Se chegasse ao governo, faria exatamente isso. Foi o suficiente para decidir a disputa.
Nas urnas, Johnson teve dois terços dos votos. Barry Goldwater ficou com o terço restante. O Partido Democrata, agora, sabe que não pode se dividir. Uma divisão e adeus Casa Branca. Nenhum partido joga assim nesta base. E os democratas sabem que é mais fácil Hillary recuar do que Obama. Se este recuasse, estariam perdidos todos os votos do eleitorado negro. E nas urnas o voto não tem cor. Nem etnia. >>> TRIBUNA DA IMPRENSA


