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Lula volta a prestigiar Serra, dia 20, liberando R$ 2,1 bilhões do BNDES para o metrô e saneamento

In Politics on 14/05/2008 at 10:48 PM

CIDADE BIZ

Não se enganem pelas aparências. Todos afagam Lula pela sua enorme popularidade e os cofres forrados

Antonio Machado

Dia 20, o presidente Lula, o governador José Serra e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, participam de cerimônia, em São Paulo, que esvazia simbolicamente o argumento da oposição segundo o qual as obras do PAC e o ambiente festivo armado para lançá-las atendem em especial aos executivos estaduais e municipais governistas.

O evento servirá para dar cores políticas ao empréstimo do BNDES de R$ 1,8 bilhão para a extensão do Metrô paulistano, além de R$ 300 milhões para obras de saneamento da Sabesp. Ao todo, R$ 2,1 bilhões para duas empresas estatais do governo de São Paulo.

Serra é o pré-candidato à sucessão de Lula mais bem situado nas pesquisas. Ou seja: o saco de pancada da vez dos petistas, com a discreta aprovação do presidente. Mas tudo é só política. No plano pessoal, eles se dão bem, apesar de se terem enfrentado em 2002.

Lula e Serra terão se encontrado três vezes em público depois do evento da próxima terça-feira, nas últimas três semanas, sempre em situações animadas. E, agora, numa festa política regada a bilhões de reais. Já deve ter muito petista paulista disputando lugar nem que seja de papagaio de pirata. Em ano de eleição municipal, estas concessões ao orgulho podem significar alguns milhares de votos.

Lula vai mostrando que está acima do bem e do mal. No íntimo, é possível que Serra fosse o seu sonho de consumo para o Ministério da Fazenda, não existissem as diferenças partidárias que parecem incomodá-lo cada vez mais. Aliás, conta-se que ele até o indicou para a Fazenda ao então presidente Itamar Franco, que desistiu de chamá-lo após ouvir o seu chanceler Fernando Henrique, o nomeado.

O grande pauteiro

E assim Lula vai. Ele começou a semana no Rio lançando a política industrial e aproveitou a escala para inaugurar o início da maior obra do governador Sérgio Cabral, do PMDB, o Arco Rodoviário. Não demora e estará “inaugurando” gentilezas com outros governadores.

Coutinho também é próximo aos dois. Ele está no governo Lula, mas poderia estar no de Serra, que poderia ter sido um bom ministro de Lula. Mas não se enganem pelas aparências. Todos o afagam pela sua enorme popularidade e os cofres forrados – só que Lula é de Lula e de mais ninguém. Lula é o grande pauteiro da política brasileira.

Gente mal-agradecida

Líderes empresariais agradeceram as boas ações da nova política industrial, mas como glutões que não sabem a hora de sair da mesa reclamaram de que elas são insuficientes para promover outro salto das exportações e dos investimentos diante da alta dos juros e da valorização cambial.

Lido ao pé da letra, significa que dispensam os incentivos do BNDES e os favores das desonerações tributárias, quando, de verdade, vão agarrá-los à unha. Então, por que chiaram? Talvez para ver se tiram mais algum, responderia um cínico.

Empresários e governo se pegam, muitas vezes, por uma dissonância cognitiva sobre o papel da representação empresarial. Os temas centrais da política econômica são discutidos com poucos e bons do empresariado que está à frente de grandes empresas.

Mas na hora da festa, sobem ao palco os dirigentes de entidades de classe, muitos dos quais representam a si mesmos, e o pessoal que se ressente dos problemas da economia e não foi ouvido. Os outros, muito ocupados, voltam a seus afazeres. O que fica é o pau na Selic.

Álibi do factóide

Há muita incompreensão, embora o conflito entre a Fazenda e o BC não se preste a esclarecer, só a tumultuar. Perde-se a percepção de que há não uma luta feroz de posições, mas a busca de saídas à pauleira dos juros e à armadilha em que Lula se enfiou, arrastando a gerente do PAC, ministra Dilma Rousseff, ao achar neste segundo mandato que o orçamento é de borracha e que pode gastar a rodo.

Poder ele pode já que a arrecadação não para de subir, mas isso se deve ao crescimento do mercado interno e das importações, que são pesadamente tributados. Gente de sua confiança propõe que ele aumente para 5% do PIB o superávit primário, cuja meta no ano é de 3,8% e hoje está em 4,48%, e use parte do aumento, digamos, 0,5%, para o tal fundo soberano, o factóide do ministro Guido Mantega. O grosso seria para abater a dívida pública. O BC estaria em casa.

Para onde vai a vaca

A política econômica também é feita de política lato sensu. É com isso que Lula se incomoda, pois ele sabe que a demanda aquecida se acumula ao choque externo de preços das commodities. As duas ações atiçam a inflação, e o consumo à solta explica muito do déficit em contas correntes e a queda dos superávits comerciais.

Afora Mantega, que mitiga o excesso de demanda, os conselheiros de Lula estão preocupados. Há duas coisas a fazer antes que a vaca vá para o brejo: o BC acelera a Selic, e a economia pode capotar, ou o governo modera seus gastos. Ambas reduzem a demanda agregada.

O jeito do BC é punk, enquanto a saída pelo aumento do superávit primário é uma forma sutil de aliviar a pancada da Selic e abater a dívida pública sob o manto do fundo soberano. Lula cederá se achar baixo risco à sua imagem. O custo seria engolir o fundo de Mantega. O preço pode ser alto para uma inflação já muito forte. >>

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