SPECULUM
Por Adla Bourdoukan
O ano é 1957, e a União Soviética acaba de lançar os satélites Sputnik e Sputnik II, assumindo a dianteira na corrida espacial. Em plena guerra fria, os Estados Unidos sentem o golpe, pois pela primeira vez em 13 anos, desde a explosão da primeira bomba nuclear, haviam perdido a liderança tecnológica.
A resposta norte-americana não poderia ser simplesmente lançar um outro satélite. Isso já havia sido feito. Os Estados Unidos precisavam, além de lançar seu próprio satélite, fazer algo espetacular em alguma área. Para tanto, teriam que investir em pesquisa básica. Naquele mesmo ano de 1957, o presidente Eisenhower criou a Advanced Research Projects Agency (ARPA), com a missão de centralizar pesquisas que antes eram conduzidas de forma descoordenada pelo exército, marinha, aeronáutica e por pesquisadores civis. Em 1958, os projetos relacionados à conquista do espaço foram transferidos para uma nova agência, a NASA (National Aeronautics and Space Administration), e a ARPA passou a dedicar-se mais à pesquisa básica de longo alcance, embora ainda realizasse pesquisas voltadas para objetivos militares.
Com a eleição de John F. Kennedy como presidente dos Estados Unidos, houve uma mudança na política externa norte-americana: não se perseguia mais uma política de retaliações massivas, mas antes se buscava um sistema de respostas flexíveis às ameaças externas. Os projetos em andamento na ARPA nessa época iam da pesquisa de mísseis balísticos de defesa e detecção de testes nucleares a pesquisas comportamentais e de comando e controle, e, a partir de 1961, pesquisas com computadores, ainda voltadas para simulações de cenários de guerras. Já em 1964, o foco da agência havia mudado completamente, com pesquisas de computação gráfica, sistemas de time-sharing e linguagens de computadores.
Em 1964, um artigo publicado por Paul Baran, “On Distributed Communications Networks”, no qual é esboçada uma rede distribuída de comutação de pacotes (packet-switching network), chamou a atenção dos executivos da ARPA. Havia um consenso de que os sistemas de comunicação existentes eram muito frágeis, o que provocava uma crescente preocupação com uma possível interrupção do fluxo de informações – o que é fatal, em caso de guerra. O conceito de rede distribuída, baseado na descentralização e na redundância, era a resposta ideal. Em uma rede centralizada, a ligação entre dois nós (unidades nas quais são realizados o processamento e o armazenamento de informações) é feita necessariamente por um nó central. Essa rede é muito vulnerável, pois se o nó central for destruído ou inutilizado, a rede se desfaz. Em uma rede descentralizada, esse vulnerabilidade é menor, mas ainda existe: a destruição de um nó não desfaz a rede, mas isola uma porção significativa dela. A solução desenhada por Baran era a resposta: a rede distribuída não só é descentralizada como também é redundante, ou seja, entre quaisquer dois nós sempre há mais do que um caminho possível. Dessa forma, a destruição de um ou mais nós não acarreta a destruição ou a inutilização da rede.
A rede distribuída era um conceito revolucionário, que seria complementado por uma segunda idéia de Baran: nessa rede, a informação seria “quebrada” em vários blocos, que então seriam enviados por caminhos diferentes até o destino final, onde seriam remontados. Essa estratégia permite ganhos de rapidez e eficácia, e é a base da moderna transmissão de dados.
Com a base teórica estabelecida, e unindo de forma cooperativa esforços de vários pesquisadores, grande parte dos quais ligados à universidades norte-americanas, capitaneados e financiados pela ARPA, os primeiros “nós” da ARPANET, base do que viria a ser a Internet, foram conectados em 1969. Em 1984, a ARPANET dividiu-se em duas redes: MILNET, exclusiva para usos militares e a ARPANET. Em 1990, a Internet foi oficialmente fundada, com a junção à ARPANET de várias outras redes semelhantes que haviam sido criadas, como a NSFNET (1986), ALOHAnet (U. Havaí, 1970), JANET (Inglaterra, 1984), BITNET (U. New York, 1981), CSNet (1981) e a Eunet (1982).
A World Wide Web só seria criada em 1989, por Tim Berners-Lee e os cientistas do CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire). O termo World Wide Web refere-se ao ciberespaço, à parte abstrata da rede de informações: é um conjunto de documentos interligados a outros documentos. Para acessar a www, os cientistas do CERN criaram o primeiro browser (navegador), permitindo que pessoas sem conhecimentos avançados de informática acessassem os documentos da rede, e dando assim o impulso definitivo para a popularização da Internet.
Em 1991 acabaram as restrições para o uso comercial da rede. Foi também nesse ano que o Brasil, por intermédio da Fapesp, fez sua primeira conexão. Em 1994, a primeira pizza foi vendida pela Internet; em 1997, a Internet já chegava a 171 países; em 1999, foi travada a primeira ciberguerra, em paralelo à guerra “real” de Kosovo.
No início de 2002, estima-se que quase 450 milhões de pessoas tenham acesso à Internet, no mundo inteiro. Essas pessoas fazem pesquisas, lêem notícias, conversam com amigos de todo o mundo, fazem compras, assistem aulas e protestam. Cientistas decifram o genoma humano cooperando com colegas que nunca encontraram pessoalmente. Os mais ferrenhos adversários da globalização trocam e-mails para organizar manifestações do outro lado do mundo e compram passagens de avião pela Internet. Por outro lado, uma grande maioria de pessoas não tem acesso à rede e não terá tão cedo.
Conquistamos o espaço, conquistamos o ciberespaço. Alguns dirão que a ficção científica nos alcançou. Outros, que nunca antes uma revolução mudou tão pouca coisa. >>


