Annuit coeptis

O espectro digital

In Opinion, Technology on 18/05/2008 at 12:19 PM

UOL MÍDIA GLOBAL

Andrew Keen

O tema central dos três novos livros ‘Against the Machine’ (’Contra a Máquina’), de Lee Siegel; ‘We-Think’('Nós-Pensamos’), de Charles Leadbeater; e ‘Here Comes Everybody’ (’Aí Vem Todo Mundo’), de Clay Shirky, é uma idéia antiga: a de que a tecnologia é a ‘locomotiva’ que revoluciona a sociedade. Os autores diferem apenas em suas visões de para onde essa locomotiva está nos levando.

Siegel é um pessimista que acredita que a tecnologia da informação está destruindo a sociedade, enquanto Shirky e Leadbeater são otimistas que acham que ela permite que nos realizemos como seres sociais.

A locomotiva pode ser velha e suja, mas tem um motor novo e sofisticado. Podemos chamá-la de 1expresso digital1. Siegel, Shirky e Leadbeater concordam em relação às características dessa locomotiva. Ela é formada por produtos e serviços digitais: a Internet como rede global, os sistemas de telefonia móvel; e, acima de tudo, as novas comunidades cooperativas e auto-alimentadas como o Facebook, Wikipédia, YouTube, Google e centenas de start-ups interativas Web 2.0 que estão transformando o uso que fazemos da mídia. Cada autor tenta imaginar os novos tipos de comunidade que emergirão como conseqüência da mania por wikis, blogs e outras tecnologias cooperativas de código aberto.

Então para que tipo de comunidade essa locomotiva brilhante está indo? Para Siegel, um crítico norte-americano, ela está nos arrastando para longe, e não na direção, do que significa ser humano. Seu vívido criticismo teme pela sobrevivência da verdadeira comunidade humana, ou até do próprio homem, na cultura digital de hoje. O cerne do argumento de Siegel é de que a vida no domínio digital não tem equivalência com a comunidade ‘real’ de carne e osso. “Uma situação social real, mesmo quando as pessoas não falam umas com as outras, está repleta de rostos e objetos vistos de relance, gestos para ver e sons para ouvir que fazem como que a comunicação aconteça. Mas essas visões, sons e gestos… também servem como barreiras para aquilo que você quer expressar. Você não pode ser totalmente ‘você mesmo’… Esse é o significado de estar em público.”

Para Siegel, a intrincada e complexa sensorialidade da realidade social está dando lugar à utilidade artificial e vulgar da vida virtual. A vida na Internet, diz ele, é falsa, assim como todas as pessoas em sua “comunidade virtual”. Sentar-se sozinho em frente a um computador em rede e se “comunicar” com outros seres solitários é um ato profundamente anti-social. Isso “reduz” o complexo mundo social apenas para o que gira em torno de nós e dos nossos apetites, e a Internet passa a ser “o primeiro ambiente social que serve às necessidades do indivíduo isolado e altamente anti-social”. A Web é, para Siegel, essencialmente uma ilusão ótica, uma infinita sala de espelhos em que indivíduos atomizados e narcisistas estão na realidade apenas olhando para si mesmos.

Então como podemos lutar contra a máquina? ‘Ser humano’, diz Siegel, requer que nós nos tornemos dissidentes culturais na era da Internet, um grandioso momento histórico que ele descreve, com a solenidade de um reminiscente neo-marxista, como a ‘fase final do capitalismo’. O dissidente deve se recusar a participar do que Siegel chama de ‘teatro vazio’ que transforma a vida interior em um produto para o público. Ser humano significa guardar diligentemente a sua privacidade. Na era da massificação eletrônica, os dissidentes culturais permanecem silenciosos.

O silêncio com certeza não é uma virtude em ‘We-Think’, o antídoto otimista de Charlie Leadbeater ao pessimismo fin-de-siècle de ‘Against the Machine’. ‘We-Think’ é uma polêmica a favor dos benefícios sociais da revolução da nova mídia. Para Leadbeater, um guru da nova mídia que vive em Islington, no Reino Unido, e que já foi tutor de Tony Blair em relação às implicações comunitárias da era digital, a Internet liberta a vasta capacidade da humanidade para a troca. ‘O futuro somos nós’, anuncia Leadbeater.

‘We-Think’ vira do avesso todas as conclusões de Siegel sobre o individualismo e a comunidade. Agora, com tecnologias de troca como os blogs e wikis, ‘nós nos definimos não por aquilo que temos, mas por aquilo que trocamos’. Na Wikipédia, podemos dividir nossos conhecimentos de forma altruísta; no Facebook podemos dividir nossas vidas com os outros; na blogosfera, podemos dividir a nossa ideologia; em nossos telefones celulares, podemos dividir os nossos movimentos. ‘We-Think’ reescreve a epistemologia cartesiana. ‘Nós-Pensamos’, diz Leadbeater, ‘logo existimos’.

Assim como Leadbeater, Clay Shirky, professor da Universidade de Nova York, vê o expresso digital como uma representação do verdadeiro começo da história humana. Ele aposta mais alto do que ‘We-Think’ no que diz respeito às implicações culturais, econômicas e sobretudo políticas dessa revolução. Em seu livro ‘Here Comes Everybody’, ele advoga que a nova tecnologia desmascara a artificialidade da liderança, a pretensão das hierarquias humanas não naturais. As novas ferramentas sociais reduzem as organizações ao seu componente fundamental – as pessoas. E as pessoas, para Shirky, são criaturas naturalmente amorosas, sem a tendência de sair por aí mandando uns nos outros.

‘Here Comes Everybody’ é abertamente o livro mais político dos três. Enquanto Siegel está preso ao eu narcisista, e Leadbeater é tão energicamente idealista que não se detém para observar algo tão mundano quanto a política, Shirky devota uma parte considerável de seu argumento ao ’sofrimento’ potencial das elites políticas. Não é surpresa para alguém que soa como um Antonio Gramsci do século 21 que Shirky veja a crise da classe política dominante trazida pela revolução da mídia social como uma coisa boa. A tecnologia da informação permite rebeliões ‘interativas’, ‘mobilizações instantâneas’ em ‘tempo real’ em todos os lugares, desde os Estados Unidos de George W. Bush até a Belarus de Alexander Lukashenko.

Devemos adotar o pessimismo apocalíptico de Leadbeter ou o otimismo messiânico de Shirky? Não sou o juiz mais isento nesse caso, uma vez que meu próprio livro, ‘Cult of the Amateur’, está evidentemente no campo de Siegel. O que vou dizer, em prol da imparcialidade, é que os três livros levantam pontos importantes sobre o papel cada vez mais ativo que a tecnologia da informação tem na política e na sociedade.

Mas não se deixe seduzir pelo discurso de tirar o fôlego sobre a mudança de ‘era’ que esses três autores dizem estar testemunhando. Nos anos 60, Marshall McLuhan previu as mesmas conseqüências revolucionárias em relação à era do computador. Nos anos 80 e 90, o debate foi assumido por Neil Postman, Kevin Kelly e George Gilder. No ano passado foi a vez de minha própria crítica e da ‘longa história’ utópica de Chris Anderson.

A verdade é que uma onda de futuristas digitais após a outra está convencida de que estão vivendo a mais profunda mudança na história humana. E a única coisa da qual tenho certeza é de que dentro de dez anos, haverá uma nova geração de Shirkys, Leadbeaters e Siegels nos dizendo que o expresso digital está levando a sociedade para direções que irão alterar a história humana para sempre.

(Andrew Keen é autor de ‘The Cult of the Amateur’)

Tradução: Eloise De Vylder >>

You must be logged in to post a comment.