Annuit coeptis

Botafogo-Náutico, até Bebeto de Freitas, detido

In Latest News on 02/06/2008 at 5:12 PM

TRIBUNA DA IMPRENSA

Hélio Fernandes

Lembra Brasil-Argentina na Copa Rocca de 1946

Constrangido, envergonhado, estarrecido mas não surpreendido, sou obrigado a escrever sobre o jogo Náutico-Botafogo. Nem me interessa o resultado, nesse primeiro tempo não houve futebol.

André Luiz, zagueiro do Botafogo, foi expulso por causa de dois cartões. Como dois amarelos resultam em um vermelho, teve que deixar o jogo. Justamente. Indefensável seu comportamento a partir daí, fazendo gestos para a torcida.

Mas pior do que isso surgiu com o grupo de policiamento, na verdade um grupo truculento, que criou toda a gravidade do fato. Prenderam o jogador com violência, 8 contra um.

O mínimo que ele sofreu foi violência em massa e agressão total. Quiseram levá-lo de todas as maneiras, uma policial gritava: “Ele me desacatou, ofendeu a torcida, está preso, vai para a delegacia”.

Os jogadores do Botafogo não sabiam se defendiam o companheiro ou se continuavam o jogo. Não havia um diretor do Botafogo ou do próprio Náutico. Só muito tempo depois é que apareceu Bebeto de Freitas, que acabou detido. Vergonha.

Essa violência no Recife me recorda outra violência igual à maior, acontecida em 1946. Foi no Monumental de Nuñes, então fechado apenas de um lado. Mas já era um estádio bonito. Jogavam Brasil-Argentina pela Copa Rocca. Era minha primeira cobertura de futebol no exterior.

Eu era da revista O Cruzeiro, acabara a Constituinte. Naquela época não viajavam 300 jornalistas (como deve ser mesmo), só estava presente Oduvaldo Cozzi da poderosa Rádio Nacional. O chefe da delegação brasileira era a extraordinária figura de Ciro Aranha, depois presidente do Vasco. Me convidou para ir com ele, como recusar?

As duas seleções eram importantes e talvez melhores do que as de hoje. Só que a torcida argentina (ao contrário da do Recife, que não tomou parte em nada) queria a cabeça dos brasileiros, pedia isso em voz alta, ou melhor, aos berros, como se fossem selvagens. Era impossível jogar futebol daquela maneira, não houve jeito, terminou zero a zero.

Os jogadores foram para o vestiário, Ciro se encaminhou para a tribuna de honra. Muito meu amigo, disse: “Helio, vem comigo”. Repórter e mocíssimo, atendi logo, não saí do lado dele. Ciro chamou o presidente da confederação, disse imediatamente: “Presidente, a seleção brasileira não volta a campo, não joga mais”.

O presidente da confederação fez todos os apelos e promessas, Ciro Aranha impassível. Desesperado, o presidente da confederação chamou o cardeal de Buenos Aires. Levou uns 20 ou 30 minutos para chegar, apelou de todas as maneiras para que a seleção voltasse, e Ciro Aranha, impenetrável. O cardeal chamou o comandante do policiamento, perguntou: “O que aconteceria se o Brasil não voltasse a campo?”. Resposta simples, mas trágica: “Um massacre”. Ciro abraçou o cardeal, voltou ao jogo.

Mas não houve futebol, o Brasil perdeu por 2 a 0, os 2 gols do bigodudo Mendes, na verdade um grande jogador. Ontem também não houve futebol. Houve de tudo, menos futebol. No segundo tempo, sem condições de jogo, o Botafogo se perdeu completamente. O próprio placar de 3 a 0 diz isso.

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