AGÊNCIA CARTA MAIOR

A indústria mundial do petróleo e derivados é o setor que mais riqueza distribui entre os acionistas de suas empresas, mas sem que essa atividade tenha impactos positivos na vida de milhões e milhões de pessoas que, “a rigor, são os verdadeiros donos desses recursos naturais”, critica Isabel Tamarit, da ONG Interpón Oxfam, ao avaliar resultados do Congresso Mundial do Petróleo.
Tito Drago (IPS)
MADRI – O décimo-nono Congresso Mundial do Petróleo terminou ontem (3) na capital espanhola ouvindo as propostas dos pobres de todo o mundo e com acordos, com sutis diferenças, entre os grandes do setor. A indústria mundial do petróleo e derivados é o setor que mais riqueza distribui entre os acionistas de suas empresas, mas sem que essa atividade tenha impactos positivos na vida de milhões e milhões de pessoas que, “a rigor, são os verdadeiros donos desses recursos naturais”, disse à IPS Isabel Tamarit, responsável pelo setor privado na ONG Interpón Oxfam.
Tamarit acrescentou que as soluções estão à vista, “mas é preciso ter vontade política por parte de governos e empresários para implementá-las”. A solução, concluiu, se conseguiria com políticas e contratos de exploração mais justos e “uma clara transparência na gestão dos hidrocarbonos sem suas diferentes etapas, tanto pelos governos quanto pelas empresas”. Sobre o mesmo assunto, a Oxfam apresentou um documento indicando lucro obtido em um só lote petrolífero na Bolívia, de aproximadamente US$ 65 milhões por ano, que poderia financiar os cuidados com a saúde de mais de 1,1 milhão de pessoas e a educação de mais de 860 mil.
No congresso aberto terça-feira (1º), o otimismo foi transbordante, tanto sobre a manutenção dos altos preços quanto pela dependência do petróleo das economias nacionais. Linda Cook, diretora-executiva de uma das maiores empresas, Shell, e Abdullah Salatt, conselheiro do ministro de energia e Indústria do Qatar, um dos maiores produtores, afirmaram que na reunião plenária que a crescente demanda por gás natural lhe dará maior destaque no curto prazo. Isso se deve, afirmou Cook, ao aumento da população mundial e ao crescimento econômico global.
Mohammad Meziane, presidente da empresa estatal argelina Sonatrach, foi mais além ao explicar que o planejamento energético da Europa indica que 80% do mesmo serão baseados nos combustíveis fósseis e que grande parte destes serão de gás natural. Salatt foi concludente ao considerar que “todos os elementos fundamentais para que ocorra uma globalização do gás natural estão se dando a um ritmo muito rápido”. O presidente da Nacional Offshore Oil Corporation, Cheng Fu, destacou que o grande aumento da demanda no setor se deve majoritariamente ao desenvolvimento de paises do Sul, “que estão em um processo de industrialização e isso implica maior consumo de energia e recursos”.
Isso faz com que se incentive uma produção maior, o que implica o desenvolvimento de novas tecnologias “para aumentar nosso fornecimento, embora nos seja mais fácil buscar zonas onde a extração é mais acessível técnica e economicamente”, afirmou Christophe De Margeri, presidente da multinacional petrolífera Total, considerada a quarta em nível mundial. Quanto às demandas das organizações não-governamentais, vários representantes de empresas de petróleo sugeriram a necessidade e seu compromisso de aumentar ações para a proteção do meio ambiente.
“Podemos e queremos trabalhar com as ONGs”, pois graças à participação de algumas delas suas empresas identificaram e solucionaram problemas originados pela industria do petróleo, disse Brian Doll, executivo da norte-americana Global Environment & Health Advisor ExxonMobil. Um exemplo positivo, acrescentou, é um programa de cooperação realizado por sua companhia junto com grupos defensores do meio ambiente, ao desenvolver o programa Livre de Chumbo, que desde o começo deste século conseguiu que mais de 200 milhões de pessoas no mundo respirem melhor graças à implementação de leis que proíbem o uso de gasolina com chumbo.
Beatriz Espinosa, responsável pela área de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Petrobras, destacou que a empresa brasileira recebe prêmios desde 1998 pelos métodos que desenvolveu para defesa da saúde, segurança e do meio ambiente, transformando esses temas em “um assunto crucial para as 68 mil pessoas que formam a companhia”. Mas, desde a fundação norueguesa DNV, sua representante, Elizabeth Harstad, destacou que continua havendo grandes acidentes na indústria do petróleo, com explosões e vazamentos maciços de óleo.
Apesar de a indústria, entre outras coisas, aplicar programas desenvolvidos pela DNV, ter feito correções, Harstad destacou que “ainda falta capacitação e liderança dos que estão à frente das grandes multinacionais do petróleo para evitar vazamentos de óleo e de gases tóxicos e explosões de tanques de armazenamento”. O presidente do Conselho Mundial do Petróleo, Randall Gossen, considera que há uma relação estreita entre as decisões das empresas, o cumprimento da lei e sua responsabilidade com o meio ambiente, com as comunidades. Para ter êxito – explicou – “a tecnologia não é o único instrumento, pois se necessita também da licença social para operar”.
As organizações não-governamentais ouvem tudo isso, mas mantêm suas críticas. Entre as da Intermon se destacam os questionamentos dos contratos muito longos, que as empresas conseguem nos países do Sul; a renúncia dos Estados à cobrança de impostos quando os lucros aumentarem com a alta do preço do petróleo; exoneração de responsabilidades sociais ou ambientais (salvo exceções) e a venda a preços internacionais dentro dos paises do Sul empobrecido.


