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Polícia do Rio começa a desarticular quadrilha de estelionatários que lesou centenas de famílias

Rio – Nos últimos oito anos, o sonho da casa própria transformou-se em pesadelo para centenas de humildes cariocas que entregaram suas economias para uma das maiores quadrilhas de estelionatários do ramo na cidade. Ontem à tarde, agentes da Delegacia do Consumidor (Decon) começaram a desmantelar o esquema, prendendo uma das peças-chave do grupo, que envolve pelo menos outras 40 pessoas, todas já identificadas.
Ademar Alves da Silva Mello, 29 anos, estava com a prisão decretada pela 31ª Vara Criminal desde outubro de 2006. O mandado é referente a outro inquérito, da 1ª DP (Praça Mauá), que deu origem ao processo 2006.001.130328-1, em que está denunciado por estelionato e formação de quadrilha. Um de seus comparsas, Carlos Alberto Gomes dos Santos, continua foragido.
A investigação mostra que, através de empresas de fachada — Terra Vista Planejamento Imobiliário e RioCred Empreendimentos, entre outras —, a quadrilha oferecia imóveis avaliados entre R$ 25 mil e R$ 60 mil. Eles firmavam a chamada ‘Sociedade em Conta de Participação’. E cobravam 6% do valor do imóvel como sinal (variando entre R$ 1.800 e R$ 4 mil) e assinavam contratos de até 150 meses.
Após arrecadar o dinheiro de algumas vítimas, a empresa trocava de endereço. E ainda: os imóveis prometidos pelos golpistas jamais existiram. Os investigadores da Decon acreditam que, neste longo período de atividade criminosa, os consumidores perderam milhões de reais investidos no sonho de conquistar um lugar próprio para morar.
Mas os golpes não se limitam à moradia. O trabalho coordenado pela delegada Andrea Menezes mostra que, além do ramo de imóveis, a quadrilha tem como foco carros e motos. Ademar, por exemplo, já trabalhou com a ‘venda’ de casas e apartamentos. Desde junho, atuava como supervisor-geral da Moto Rio Comércio e Intermediações.
A empresa funciona no mesmo 19º andar do edifício número 24 da Rua Alcindo Guanabara, no Centro do Rio. Nesse endereço funcionava a MAS Intermediações de Negócios e Empreendimentos Ltda., que usava o nome fantasia de RioCred Empreendimentos.
Agora, novamente através de páginas de classificados de jornais, a Moto Rio vem atraindo consumidores à procura de motos para serviços de motoboy e mototáxi. A empresa tem contrato social e CNPJ, mas não comprou moto alguma para ninguém até agora.
Dentro da Moto Rio, os policiais civis apreenderam 13 contratos de compra de motos, modelos Twister, CG 125 FAN e Bros 150. Estão em nome de padeiros, jardineiros, operadores de caixa e costureiras, que não imaginam que o pesadelo pode estar apenas começando.
NOME ‘RIOCRED’ APARECE COM 73 REGISTROS EM DELEGACIAS
Somente enquanto usaram o nome de RioCred, os golpistas colecionaram 73 procedimentos em diferentes delegacias do Rio. Em denúncias feitas por alguns lesados, há indicações de que até um escritório de advocacia funcionava dentro da sede do grupo. A partir disso, dois advogados passaram a ser investigados pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual.
Outro alvo das denúncias funcionava na Avenida Presidente Vargas 534. A TerraVista chegava a dar prazos de até 90 dias para os interessados. Ou seja, além do sinal (em média R$ 2 mil), as vítimas pagavam até três prestações, antes que percebessem a fraude.
O nome Crediauto Representações e Participações Ltda. também foi usado para venda de carros inexistentes. Através dela, golpistas firmaram contratos de representação de consórcios de Brasília, Goiânia e São Paulo.


