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Vírus da inflação global está no DNA do dólar e da dívida dos EUA, um mico que ninguém assume

In Business, Opinion on 22/07/2008 at 9:10 AM

CIDADE BIZ

É a proeminência dos ativos financeiros sobre os fluxos reais da economia que está ameaçada

Antonio Machado

 

Com o petróleo cotado no mercado internacional a menos de US$ 130 o barril, menor preço em seis semanas, acompanhado de ajustes nas cotações das commodities agrícolas, o mundo se entreolha, com cara aflita, para tentar detectar se começou a entrar em cena no palco de horrores da economia global, que já dura exatos doze meses, um novo blockbuster: o estouro da bolha dos recursos naturais.

Os sentimentos são contraditórios. Preços menores de alimentos e petróleo aliviam as pressões inflacionárias. O FMI revisou a sua estimativa de crescimento da economia mundial de 3,7% para 4,1%, o que é um alento para um cenário congestionado de palpites sobre os riscos de uma grande recessão, mas também elevou a sua projeção de inflação nas economias emergentes para 9,1% este ano, contra 6,4% no ano passado, e recomendou atenção máxima sobre os preços.

A sensação é que faltará demanda para sustentar o pique da bolha das commodities, sem que se saiba ainda como tais tendências serão digeridas num quadro econômico pilotado pelo mundo das finanças.

É a proeminência dos ativos financeiros sobre os fluxos reais da economia que está ameaçada, mostrando sinais de exaustão e repulsa ao que foi o seu isotônico nas últimas décadas, a fonte das bolhas de especulação e das grandes distorções na alocação de capitais: a farta liquidez do dólar e o que o alimenta, os déficits dos EUA.

Sem a correção de um não se resolve o outro, e não há indícios de que se fará nos EUA como os governos americanos sempre exigiram de outros países com desajustes fiscais e cambiais, fazendo do FMI o ventríloquo de sua orientação: a recessão via medidas clássicas – aumento de juros, restrição de crédito, corte de gastos públicos -, para criar saldos exportáveis e assim solver a dívida nacional.

O que vale para os outros para eles não se aplica enquanto houver mercado para os dólares que financiam os excessos de consumo e do orçamento fiscal, implicando na prática exportar a inflação deles para o resto do mundo. E é o vírus inflacionário que está embutido no DNA dos títulos de dívida do Tesouro dos EUA e no próprio dólar importados pelos fornecedores da economia americana que assusta e leva à migração dos capitais para bens reais, hoje as commodities.

Os sócios do dólar

Assim tem sido desde o fim da II Guerra, o mundo girando em torno do dólar – bom para quem foi ajudado ou soube tirar de sua energia os capitais para se desenvolver, como a Europa e Japão no primeiro caso e a China no segundo. Todos criaram brilho próprio.

Os demais continuaram satélites, fornecendo matérias-primas para a expansão dos vencedores e vencidos da II Guerra. Mas algo mudou tal script, e, pelo jeito, de um modo que fez dos financiadores dos déficits dos EUA uma espécie de sócios não convidados do dólar.

O incrível Dr. Deng

A surpresa foi a China. Alavancada pelos EUA depois da guerra do Vietnã para ser anteparo à então União Soviética, a China liderada pelo reformador da era pós-Mao, Deng Xiaoping, foi além: fundou um capitalismo de estado associado ao capital estrangeiro e abertura econômica que deu muito certo. O país virou potência industrial.

A estratégia comercial da China foi produzir para os EUA. E, pelo lado financeiro, aplicar em dólar os superávits cambiais, obtidos com taxa de poupança de 40% do PIB, para amortecer a reação contra o câmbio artificialmente desvalorizado.

A China acumula US$ 1,8 trilhão em reservas, mais de dois terços em títulos atrelados ao dólar ou moeda sonante. Graças a esta bicicleta, que outros países superavitários também adotaram, os EUA se endividaram até o nariz.

O suspense continua

A dívida pública e financeira privada dos EUA surgiu assim e está sustentada por papelotes que hoje se descobre valem menos do que o seu registro nos balanços dos bancos. Este é o caráter profundo da crise de Wall Street, agravada pela excessiva liquidez global, que a política de juros baixos, negativos em muitos países, acentuou.

A inflação de demanda dar as caras era questão de tempo, como foi antecipada pelas bolhas de especulação nos EUA. O ajuste de contas do lado financeiro da economia com o seu equivalente real está em xeque. Investidores e governos preferem por prudência manter suas disponibilidades em matérias-primas, como petróleo, não em ativos financeiros de valor incerto.

Enquanto não se resolver o conflito, o suspense continua. E Wall Street seguirá cuspindo sangue.

China atrai 2ª Frota

Tudo ficou mais complexo no mundo. Árabes produtores de petróleo pararam de comprar castelos na Europa e passaram a investir com a técnica de prudência que os banqueiros dos EUA e Europa ignoraram na orgia do subprime e dos derivativos. Eles operam com a novidade dos fundos soberanos em vez de só acumular reservas ou gastar.

Tal como a China, que foi à África atrás de fornecedores cativos de insumos para suas fábricas. É o que explica a volta da 2ª Frota Naval dos EUA ao Atlântico Sul mais que o temor do presidente Lula – a cobiça no petróleo do pré-sal.

O mundo mudou. Vê-lo só pela ótica dos mercados é primário. Muitos governos querem ter voz nas decisões sobre o dólar porque os têm à larga em caixa. A disputa é essa.

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