Na incerteza geral, uma idéia vai se clareando e se fortalecendo: seja lá o que ocorrer, isso dependerá das forças das nações mais ou menos envolvidas nessa crise do sistema financeiro que se tornou uma crise no sistema capitalista como um todo. A dimensão nacional das decisões econômicas volta a ser sublinhada, com os impulsos desagregadores e mesmo desintegradores que a crise trouxe à baila. A análise é de Flávio Aguiar.
Flávio Aguiar
BERLIM – Muitos economistas e comentaristas vêm apontando que um dos efeitos dessa crise será o fortalecimento, a médio prazo, dos Estados Unidos e da China, frente a seus aliados/rivais europeus e asiáticos.
O modo como os governos europeus vêm se debatendo em meio à crise fortalece a visão de que a União Européia é uma união monetária, mas não política. O quadro futuro, dure o processo de insolvências o que durar, é recessivo em escala mundial, e em época de vacas magras, meu capim vem primeiro, diz o ditado numa variante muito especial e muito adequada no momento. A Alemanha recalcitra em apoiar medidas de dimensão européia, o que levaria a usar seus capitais para socorrer também bancos estrangeiros. A dimensão nacional das decisões econômicas volta a ser sublinhada, com os impulsos desagregadores e mesmo desintegradores que a crise trouxe à baila, da América do Norte ao Japão, através da Europa.
Os Estados Unidos vêm sendo apontados como potencialmente o estado que sairá mais fortalecido da crise, em comparação com os outros, por sua dimensão continental. Ou seja: se nele a crise tem dimensões continentais, as soluções também terão. O mesmo acontece com a China, e mais ainda porque o destino dos dois gigantes está mais do que nunca interligado, embora às vezes por uma competição dentro dos mesmos espaços. A China, numa reviravolta histórica, tornou-se uma investidora nos Estados Unidos, assim com em outros países.
Diante dessa moldura, cresce em importância o que acontecerá nos Estados Unidos nas próximas semanas, com a eleição presidencial. Num movimento errático e errado, o republicano McCain comprometeu suas forças ao interromper, semanas atrás, sua campanha para unir-se ao esforço de aprovação do pacote de US$ 700 bi na Câmara em Washington. A manobra saiu-lhe caro. Em primeiro lugar, qualquer manual de política, do DEM ao PSOL, diz que candidato nenhum em nenhum momento deve interromper campanha nenhuma. Em segundo lugar o fracasso da primeira votação do pacote grudou-lhe na pele, e a acusação possível de que ele tudo fizera e Obama nada, voltou-se contra ele mesmo, em termos de que ele tudo fizera sim, mas de errado.
Nesta semana, numa tentativa de recuperar o terreno perdido (além de sua campanha ter intensificado os ataques pessoais contra Obama, sobretudo através de sua vice, Sarah Palin), McCain propôs que dos 700 bi, pelo menos 300 sejam dedicados a renegociar as hipotecas inadimplentes diretamente com os devedores, tomando por base o valor real no momento dos imóveis adquiridos, que foi depreciado (e esta é uma das razões da inadimplência). A proposta esbarra numa dificuldade que vem sendo apontada, a de que, se a dívida ainda pertence a cada um dos devedores, os títulos das hipotecas mudou de mãos, ou de fundos, revendidos que foram dentro da ciranda financeira que se estabeleceu em torno delas. Ou seja, seria também necessário renegociar a expectativa de ágio com estes novos credores (entre eles alguns bancos europeus e outros asiáticos) que entraram na jogada, o que só seria possível através de uma liderança forte no plano internacional e nacional.
Obama e sua equipe reagiram com cautela diante da proposta de McCain, saindo pela tangente de que é potencialmente perigoso envolver dinheiro de contribuintes em operações de deságio de dívidas, ou seja, de socialização das perdas. Mas a questão ficou meio oculta atrás das meias argumentações dos dois lados, pois a questão difícil de driblar – nesse caso mais difícil para o republicano do que para o democrata – é a de que o estado atual da crise evoluiu de um acúmulo de inadimplências para uma crise universal de confiança que só uma contínua e robusta (para usar termo da moda) intervenção reguladora do Estado pode debelar.
Por isso, em parte, a questão do tamanho tornou-se fundamental. Por mais superficial que venha a ser, uma intervenção do Estado norte-americano será sempre mais robusta, coordenadora e integrada do que a de seus divididos aliados/rivais no mundo europeu e asiático. Curiosamente, isso tem a ver também com a alegada melhor situação de Brasil, Índia, Rússia e, obviamente, a China.
Por esse lado, os Estados Unidos sairão relativamente mais fortalecidos se o eleito for Barack Obama, não só porque os democratas têm se demonstrado mais dispostos a meter a mão na massa, mas também porque McCain, apesar de seus esforços em contrário, recende demais ao perfume intelectual da era Bush Filho e à herança da defesa sem peias do “livre jogo de mercado” que, entre outras catástrofes, produziu a crise financeira que ora se abate sobre toda a amplitude da rosa dos ventos e dos sete mares.
No caso da eleição de Obama, seu maior desafio (no sentido de consolidar uma nova visão de liderança) provavelmente não virá da frente econômica, embora não esteja muito claro o que sua equipe prepara em seu caldeirão de medidas emergenciais e de longo prazo. Ele virá da frente político-militar. Durante os oito anos de Bush Filho, reavivou-se um cenário de Guerra Fria com a Rússia, a que McCain, se eleito, dará continuidade. O que fará Obama?
Terá forças ou condições de reverter essa política de novo cerco ao arquiinimigo que, entre outras coisas, levou a desastres e impasses como na Geórgia? Nesse quadro, ter um plano para sair do Iraque pode parecer até “fácil”, diante do acúmulo de forças que seria necessário para embainhar os canhões, ou melhor, os mísseis da OTAN.
Mas sem essa reversão não haverá “nova liderança” a se construir. E sem essa “nova liderança” o quadro, para os Estados Unidos, não se afigura nada bom, pois eles continuarão a bater de frente com a Rússia, tendo por aliados países mais enfraquecidos pela recessão que se avizinhará de modo mais intenso, e tendo nas bordas a paciência chinesa a roer-lhe as franjas… e logo o osso e quem sabe o filé.
Uma observação paradoxal, vinda desse correspondente. Um quadro dramaticamente recessivo em escala mundial não é bom para ninguém, sobretudo para as esquerdas. Assim, vivemos o paradoxo, pelo menos desta vez, de que talvez mesmo o que seja bom para os Estados Unidos venha a ser bom para o mundo inteiro… Pelo menos até segunda ordem, é claro. A que ponto chegamos!


