Para PIB global crescer 2%/3% ao ano, crédito deveria aumentar 15%, mas falta gás à banca
Com quase 14 meses da hecatombe financeira iniciada nos EUA, e a passos largos minando as bases da produção, comércio e emprego no mundo, nem o refluxo do pânico da quebradeira sistêmica de bancos se dá como seguro. A riqueza escorre pelo ralo em toda parte.
Os países da União Européia cogitam desembolsar cerca de US$ 200 bilhões para levantar a economia da prostração recessiva a que se entregou, repetindo o intento do pacote fiscal de US$ 586 bilhões, anunciado semana passada na China. A correria dos governos, que já chegou ao Brasil, revela o pavor de que o que é ruim acabe mortal, se a taquicardia do crédito levar à síncope do sistema produtivo – a depressão da qual não se sai sem uma longa, sofrida recuperação.
Com mais um ano de chacina do capital acumulado, agora também o físico e não só o financeiro – dada a falta de reação da economia aos estímulos aplicados -, a banca será sobrecarregada pela ruína seriada de empresas, como prenuncia a situação de insolvência da General Motors, Ford e Chrysler. Outra onda de pânico é possível – e com seqüela para as finanças dos países, devido à rede estendida pela maioria para prevenir a insolvência de seus bancos nacionais.
A encrenca é séria, não há como escondê-la como temerariamente o governo ainda insiste no Brasil, ora instando o consumidor a ir às compras, ora anunciando previsões de crescimento econômico forte em 2009. E vai continuar se agravando enquanto as autoridades dos países centrais, os sete do G-20, não se porem de acordo quando ao tamanho das perdas bancárias. Não de seu volume, já meio sabido em boa parte, e sim a maneira de contabilizá-las.
Parece prosaico, mas é tudo, implicando o inferno ou o limbo para o sistema bancário. O paraíso só voltará a ser almejado depois que os excessos da farra financeira forem purgados nos EUA e Europa, o que saiu do horizonte.
O que está em jogo, para David Roche, presidente da consultoria Independent Strategy, de Londres, são a duração e a profundidade da recessão, já dada para a maioria das economias, e o risco de que mergulhe na depressão. Tais possibilidades dependem da intensidade da desalavancagem dos ativos financeiros.
A metodologia de Roche tem a vantagem de substituir a adjetivação da crise por um sistema de valores quantificáveis e demonstráveis, capaz de avaliar o tamanho do problema e a eficácia das soluções.
O ponto inicial é o capital próprio livre de riscos dos bancos, o “tier-one”, em inglês – segundo ele, um “bom indicador reverso” da alavancagem existente das instituições financeiras. A conclusão é que muita pedra levada morro acima ainda vai rolar. Aos números.
Perdas são relativas
Um ano e meio atrás, véspera da crise, o capital próprio da banca em todo mundo totalizava cerca de US$ 5 trilhões, sendo que bancos dos EUA e União Européia tinham desse total US$ 3,3 trilhões, base para US$ 43 trilhões, múltiplo de 13 vezes, de empréstimos. E veio a crise.
Quanto perderam desde então, entre a depreciação do valor dos ativos financeiros e desalavancagem, o que ainda não considera o crescimento da inadimplência trazida pela recessão? Existem três respostas, dependendo do método de contabilização das perdas.
Enchendo vaso furado
Pela regra da “marcação a mercado” seguida até hoje, e começando a ser aliviada nos EUA e Europa, segundo Roche, as perdas da banca estão estimadas em 85% do capital próprio total. Quer dizer, todos estariam insolventes. “A regra é extrema e supõe a queima de todos os ativos dos bancos nos mercados disfuncionais de hoje”, diz.
Já pela regra do “valor econômico”, baseada no valor presente dos fluxos de caixa futuros dos ativos a receber, as perdas correntes equivalem à metade da indicada pela “marcação a mercado”.
Por fim, há as perdas reconhecidas pelos bancos em balanço. Elas chegam a US$ 1 trilhão nos EUA. Tais perdas é que fazem o crédito no mundo encolher, enfrentado com aportes privados e de governos – US$ 770 bilhões nos EUA e Europa. Boa parte não chega ao crédito. Não dá.
Todo dinheiro não dá
Estima-se que os bancos nos EUA precisem mais US$ 1,2 trilhão em 2009. O problema, segundo Roche, é que a desalavancagem é intensa e a alavancagem vem sendo reprimida, de modo que a recapitalização bancária mal dá para manter o nível de crédito atual.
Para o PIB global crescer 2% a 3% ao ano, diz ele, o crédito deveria aumentar de 10% a 15%. Sem crédito farto, resta a recessão que se acentua.
Os governos na parede
As perdas ainda por acontecer, antecipando a necessidade de novos aportes de capital, encostam os governos na parede, caso cumpram a promessa de prover todo o crédito demandado pela economia. Segundo David Roche, as perdas de crédito devem chegar a US$ 1,7 trilhão – e isso supondo a premissa menos radical do valor econômico.
Elas vão comer o capital novo aportado na banca da Europa e EUA e reduzir o “tier-one” a um nível menor que o da véspera da crise. O que significa? Exaustão dos orçamentos fiscais, se os governos não quiserem que a recessão se amplie.
Ainda assim, o melhor cenário é que o crédito encolha ao menos 37% somente para manter constante o grau de alavancagem pré-crise. Não haverá refresco para ninguém.
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